Produtividade e crescimento salarial: mais valor para pagar melhor?

 

Há palavras que aparecem tantas vezes nas notícias sobre economia que já quase não as questionamos. “Produtividade” é uma delas. Sabemos que é importante e que Portugal tem um problema nesta área, mas sabemos o que significa, afinal, ser mais produtivo? Simplificando: é produzir mais — ou melhor — usando os mesmos recursos, entre os quais o trabalho. Se uma empresa aumenta o valor que produz sem aumentar na mesma proporção o número de trabalhadores ou de horas trabalhadas, está a tornar-se mais produtiva.

Até aqui, parece simples. O problema começa quando juntamos outra palavra igualmente presente no debate económico: salários.

Ao que apurei, os salários estão a crescer. Segundo o INE, a remuneração de base subiu 5,2% no último ano, refletindo os sucessivos aumentos do salário mínimo. Mas o Banco de Portugal alerta para um efeito desse ritmo: o salário mínimo já equivale a 91% do salário mediano, quando em 2019 correspondia a 87%, achatando a diferença entre salários, o que pode desincentivar a progressão salarial.

Imaginemos uma empresa que passa a pagar mais 5% aos colaboradores, mas cujo valor acrescentado por trabalhador cresce apenas 2%. A diferença terá de ser absorvida: por menores margens, aumento de preços ou redução de outros custos.

Isto não significa que os salários devam depender de um “prémio de produtividade”, nem que um trabalhador deva simplesmente trabalhar mais para ganhar mais. A produtividade depende de muito mais do que do esforço individual: da tecnologia, da organização do trabalho, da gestão, da formação e da capacidade de inovar e vender com maior valor acrescentado.

É precisamente aqui que Portugal enfrenta um problema estrutural. Segundo a OCDE, a produtividade do trabalho portuguesa continua cerca de 17% abaixo da média da organização. Uma das razões é o peso das microempresas: cerca de 40% do emprego empresarial está concentrado nelas, muitas com limitações no investimento e na capacidade de crescer.

Ou seja, talvez a pergunta não seja apenas “como aumentar os salários sem prejudicar as empresas?”, mas também “como criar empresas capazes de gerar mais valor para poderem pagar melhor?”.

Esta segunda pergunta é mais difícil: implica investimento, qualificação, digitalização e melhores processos de gestão — e condições para que as empresas pequenas cresçam e consigam competir onde o preço não seja a única vantagem. A OCDE aponta justamente o aumento da produtividade como um dos principais desafios para Portugal.

Uma economia não se torna mais competitiva por pagar menos, mas quando consegue produzir mais valor — e transformar parte desse valor em melhores salários. Para uma PME, isso passa por perceber onde investir, como melhorar processos e como crescer sem aumentar os custos na mesma proporção.

Para Portugal, talvez seja esta a equação que importa resolver: não trabalhar mais, mas conseguir criar mais valor com os recursos que já temos.

 

Sobre o tema:
Instituto Nacional de Estatística (INE), dados sobre remunerações, via Lusa:
https://www.idealista.pt/news/node/73929

Banco de Portugal, Boletim Económico de junho de 2026:
https://observador.pt/2026/06/08/salario-minimo-cada-vez-mais-perto-do-mediano-o-racio-entre-os-dois-ja-chega-aos-91-diz-o-banco-de-portugal/

OCDE, Economic Survey: Portugal 2026:
https://portugal.gov.pt/en/gc25/communication/news/ocde-presents-economic-survey-for-portugal

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